Volume XII · Madeira

Uma ilha no Atlântico.

Oito capítulos. Levadas que atravessam a ilha, uma aldeia de basalto negro onde Churchill pintou e uma floresta de louros mais antiga do que a Europa.

Uma seleção de Édi Cruz

Madeira · 2026

I.Capítulo Um

Uma carta da Madeira.

Os portugueses encontraram a Madeira em 1419 — íngreme, arborizada, vazia. Cortaram socalcos nas montanhas, plantaram vinhas que os romanos jamais teriam conseguido, escavaram 3.000 quilómetros de pequenos canais (levadas) para trazer a chuva do norte húmido para o sul seco.

A ilha inteira é um jardim em câmara lenta. Cada vale é diferente. O Fanal em nevoeiro parece uma pintura de Tolkien. O Curral das Freiras é uma aldeia no fundo de um vulcão extinto. Câmara de Lobos é onde Winston Churchill se sentou a pintar o mar.

Venha por uma semana. Fique duas. Traga sapatos de caminhada. Não salte a poncha.

Por Portugal, com amor.

Este guia é gratuito. Sempre.

II.Antes de começar

Sete pequenas regras.

A Madeira é maior do que parece. Não tente vê-la em três dias.

01

Alugue um carro pequeno

As estradas são íngremes e estreitas. Algo que rode em seis metros. Se não domina subidas, marque automático.

02

Siga o tempo, não o plano

O norte pode estar encoberto enquanto o sul está ao sol — a vinte minutos um do outro. Confirme a previsão ao pequeno-almoço e escolha o vale nessa altura.

03

Marque o Pico do Arieiro para as 5h30

A caminhada do nascer do sol até ao Pico Ruivo é a Madeira mais cinematográfica — acima das nuvens, quatro quilómetros de crista. Lanterna, agasalho, água.

04

A espetada come-se à mão

O espeto de vaca em pau de louro fica pendurado num gancho sobre a sua mesa. Vai empurrando a carne com um bocado de bolo do caco. Não são precisos talheres.

05

Uma poncha e para casa

A bebida tradicional (aguardente de cana + limão + mel) é mais forte do que parece. Uma é um ritual. Três são uma dor de cabeça.

06

As levadas são o melhor passeio

3.000 km de trilhos estreitos ao lado de canais de água. Quase todos planos. Alguns têm túneis — leve uma lanterna. Comece com a Levada do Rei ou as 25 Fontes.

07

Pôr do sol em Câmara de Lobos

O pequeno porto de pesca a dez minutos a oeste do Funchal. Sente-se numa esplanada de poncha, espere que a luz saia das falésias. É grátis.

III.Onde eu como

Carne no louro, pão na pedra.

A comida da Madeira é cozinha de casa com sotaque atlântico. Vaca, peixe, batata-doce, sal, mel, vinho, louro.

Espetada — beef on a laurel skewerN° 01

© Gerda Arendt · CC0 · Wikimedia Commons

Madeira

Sabor

Espetada — beef on a laurel skewer

O prato nacional da ilha. Cubos de vaca da Madeira marinados em sal, alho e louro, espetados num ramo de louro verde e grelhados sobre brasa, depois pendurados num gancho sobre a mesa. Cada aldeia da serra tem a sua versão. Peça-a em qualquer tasca sinalizada 'espetada'.

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Espetada em pau de louro · Milho frito · Salada de tomate
Bolo do caco — the island's breadN° 02

© Ana Cake Design · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

Funchal

Sabor

Bolo do caco — the island's bread

Um pão redondo e macio, cozido sobre uma pedra de basalto quente (o caco), servido morno com manteiga de alho e salsa. Vende-se nas esquinas do Funchal e em qualquer tasca rural. €1,50. Pão com manteiga, mas todo o madeirense se lembra de onde comeu o melhor.

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Bolo do caco com manteiga de alho · Bolo do caco com chouriço
Mercado dos LavradoresN° 03

© Dietmar Rabich · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

Funchal

Sabor

Mercado dos Lavradores

O Mercado dos Lavradores do Funchal — azulejos art déco, fruta tropical empilhada por cores, balcões de peixe cheios de peixe-espada preto e atum. Melhor à sexta de manhã, quando os agricultores descem. Traga dinheiro. Prove o maracujá e a tabaibo.

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Fruta tropical · Peixe-espada preto · Bolo de mel
IV.Pequenas cerimónias

Poncha, e paciência.

A bebida mais antiga da Madeira é um pequeno ritual: aguardente de cana, limão, mel e o pilão de madeira chamado mexelote.

Poncha — the mexelote ritualN° 01

© Mitsjol · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

Câmara de Lobos

Ritual

Poncha — the mexelote ritual

A bebida tradicional da Madeira: aguardente de cana, mel local, sumo de limão fresco — mexidos devagar no copo com um pilão de madeira até formar espuma. Peça-a em qualquer tasca da serra. Nunca num bar com música.

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Poncha regional (limão) · Poncha de maracujá · Poncha à pescador (cana + limão + mel)
V.Curiosidades madeirenses

Portas pintadas, trenós de vime.

Três pequenas curiosidades que os autocarros ignoram.

The painted doors of Rua de Santa MariaN° 01

© Dietmar Rabich · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

Funchal · Zona Velha

Escondido

The painted doors of Rua de Santa Maria

Em 2011 um grupo de artistas do Funchal transformou as portas de madeira da rua mais antiga da cidade numa galeria a céu aberto — cada porta uma pintura diferente. Duzentas portas agora. Grátis, melhor à luz da manhã.

The wicker toboggan from MonteN° 02

© Ввласенко · CC BY-SA 3.0 · Wikimedia Commons

Funchal · Monte

Escondido

The wicker toboggan from Monte

Dois homens de fato branco e chapéu de palha empurram um trenó de vime por uma estrada calcetada de dois quilómetros, do Monte até ao Funchal. Inventado no século XIX como transporte público. Agora €30, muito turístico, muito divertido. Reserve no topo do teleférico do Monte.

The Fanal laurel forest in fogN° 03

© Ximonic (Simo Räsänen) · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

Porto Moniz · Fanal

Escondido

The Fanal laurel forest in fog

A melhor floresta de laurissilva do mundo — uma relíquia UNESCO da última era glaciar. Com nevoeiro (chegue antes das 10h), os louros retorcidos parecem pintados. A quinze minutos da estrada principal. Traga impermeáveis, traga tempo.

VI.A velha capital

A catedral, e a cratera.

O Funchal tem 600 anos. Curral das Freiras é uma aldeia dentro de um vulcão extinto.

Sé Catedral do FunchalN° 01

© Dietmar Rabich · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

Funchal

Cultura

Sé Catedral do Funchal

A catedral do Funchal, do século XV, uma das primeiras igrejas da era colonial construídas pelos portugueses. Tecto de madeira em estilo mudéjar em cedro (o mesmo que os primeiros povoadores encontraram na ilha). Entrada gratuita. Dez minutos de silêncio dentro da agitação do mercado.

Curral das FreirasN° 02

© H. Zell · CC BY-SA 3.0 · Wikimedia Commons

Curral das Freiras

Cultura

Curral das Freiras

'O curral das freiras' — uma aldeia no fundo de uma cratera de 1.500 metros nas montanhas, onde as Clarissas se refugiaram dos piratas no século XVI. Chegue por curvas apertadas. Coma sopa de castanha no topo do desfiladeiro (Eira do Serrado) e olhe para os telhados lá em baixo.

VII.Onde parar

O pico, e a baía.

Um alto, um baixo. Ambos essenciais.

Pico do Arieiro at sunriseN° 01

© Diego Delso · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

Pico do Arieiro

Miradouro

Pico do Arieiro at sunrise

O terceiro pico mais alto da Madeira (1.818 m) e o único com acesso rodoviário. Ao nascer do sol as nuvens ficam nos vales lá em baixo e só os cumes estão descobertos. Chegue às 6h. Faça o último quilómetro em primeira.

Câmara de Lobos at duskN° 02

© Diego Delso · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

Câmara de Lobos

Miradouro

Câmara de Lobos at dusk

A pequena vila piscatória onde Winston Churchill se sentou a pintar o mar em 1950. Barcos coloridos na areia vulcânica, falésias por trás. A dez minutos a oeste do Funchal. Peça uma poncha na Vila do Peixe e espere pela luz.

VIII.Onde a ilha guarda a água

A levada, e as piscinas.

Os portugueses construíram 3.000 km de canais pela ilha. E no Porto Moniz, o próprio Atlântico esculpiu as piscinas.

A levada walk from Ribeiro FrioN° 01

© Dietmar Rabich · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

Ribeiro Frio

Natureza

A levada walk from Ribeiro Frio

A levada clássica para começar — duas horas planas desde o viveiro de trutas de Ribeiro Frio, por floresta de louros, cascatas e rochas cobertas de musgo. Termina nos Balcões, um miradouro para o interior. Traga uma pequena lanterna — há um túnel curto.

Piscinas Naturais do Porto MonizN° 02

© Dietmar Rabich · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

Porto Moniz

Natureza

Piscinas Naturais do Porto Moniz

Piscinas naturais de água salgada formadas no basalto negro, no extremo noroeste da ilha — o Atlântico enche-as por baixo em maré alta, o sol aquece-as ao meio-dia. €3 de entrada, balneários, seguras para crianças. Fique a tarde inteira.